Bruna Vasconcelos sobre seu caso de tráfico de bebê: ‘Minha história não tem culpados, só vítimas’

Em uma rara entrevista à imprensa, Bruna Aparecida Vasconcelos disse que “não há resposta” para o que teria acontecido se ela tivesse ficado em Israel. Em 1986, quando tinha apenas 4 meses de idade, Bruna foi raptada em casa por uma falsa babá, levada para Israel e adotada ilegalmente pelo casal Yaakov e Simone Turgeman, que alega não saber que a menina era vítima do tráfico de bebês no Brasil. Dois anos depois, a adoção foi anulada pela justiça israelense e ela retornou para a família biológica.

Bruna diante de uma foto antiga com o casal que a adotou (foto: reprodução/Yedioth Ahronot)

Bruna está atualmente com 31 anos, tem quatro filhos e mora em uma pequena cidade de Santa Catarina – cujo nome não é revelado na reportagem. A filha mais nova, de 4 anos, se chama Júlia Caroline. Quando foi adotada em Israel, o casal Turgeman deu a ela o nome Caroline. “Sinto que esse nome faz parte da minha história, eu não o esqueço”, conta ela.

“Para mim, não há culpados nesta história, apenas vítimas. O casal Turgeman pensava que estava adotando legalmente uma menina e a perdeu. Minha mãe perdeu uma filha que amava, todos sofreram. O único culpado é aquele que fez todo esse mal e fez todos sofrerem”, afirma ela, ao lembrar do caso.

Na conversa com o jornalista israelense Ran Lutzky, repórter do Yedioth Ahronot, um dos maiores do país, Bruna, conta que quase perdeu os filhos mais velhos, Daniel (16) e Eduardo (15). “Eu tinha que sair para trabalhar, não tinha escolha, senão, o que meus filhos comeriam? De onde eu tiraria dinheiro para comprar roupas para eles? Quando eu saía, ficavam com meu pai, que deveria cuidar deles. Mas ele os deixava sozinhos em casa ou na rua. O Eduardo caiu uma vez e quebrou o braço. Alguém denunciou o caso ao Conselho Tutelar, que concluiu que eu não tinha condições de criar as crianças e as levou para um orfanato”, contou.

Mesmo quando os filhos estavam no orfanato, Bruna conta que ia visitá-los toda semana. “Um dia, recebi uma carta dizendo que eu tinha sido destituída do poder familiar, que eu não tinha mais a guarda dos meus filhos e que elas estavam sendo encaminhados para adoção”, conta. “Entrei em desespero”.

Conheça o caso de Bruna
Bruna com os pais biológicos, Rosilda e Luís Américo (foto: arquivo pessoal)

Quando foi atrás de entender o que estava acontecendo, Bruna descobriu que havia alegações de que ela não visitava os filhos, o que configurava abandono. “Era mentira”, ela garante. Houve uma mudança na diretoria do orfanato e ela descobriu que o diretor anterior tinha negociado a venda das duas crianças para um casal de Portugal. “Ele mentiu para o juiz e apagou os registros das minhas visitas”, revela.

O desfecho só foi diferente, segundo ela, graças a um pequeno detalhe. Nos anos 1980, era comum que, ao revelar fotos – que na época ainda eram analógicas -, a data em que tinham sido tiradas aparecesse gravada nas imagens. Ela tinha registros de uma festa de aniversário organizada no orfanato para Daniel. A data na foto, conta Bruna, “convenceu o juiz de que eu estava em contato com as crianças”.

Ela conta que o episódio com os filhos a ajudou a entender o que a mãe dela, Rosilda Gonçalves, que batalhou de forma incansável para recuperar a filha, havia passado entre 1986 e 1988, ano em que retornou ao Brasil depois de uma decisão da Suprema Corte israelense.

Assista a trechos da entrevista. O vídeo é narrado em hebraico, mas as falas de Bruna estão em português.

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