O nome de Arlete Hilú é, de longe, o mais conhecido quando o tema é tráfico de bebês. A mulher, morta em 2023, é tida como a maior traficante de bebês da história, embora o número de crianças retiradas do Brasil e vendidas por ela e sua quadrilha para casais estrangeiros não seja conhecido com precisão.
O caso
O caso de Arlete Hilú se insere nesse contexto mais amplo de irregularidades. Arlete Honorina Vitor Hilú, mineira de Itajubá, nasceu em 6 de abril de 1945. Era uma traficante confessa, que atuou especialmente nos anos 1980, embora existam registros que indiquem que ela pode ter começado a traficar em 1968.
A mulher morreu no interior de São Paulo em 19 de dezembro de 2023. Sua última aparição pública ocorreu em 2016, quando foi descoberta no litoral catarinense e entrevistada pela Record TV. Na entrevista (foto), ela é questionada sobre o fato de ser apontada como a maior traficante de bebês da história e responde com deboche. Já inimputável, ela confessou os crimes, embora tentando minimizá-los e justificá-los.

Entre o fim dos anos 1980 e início da década seguinte, Arlete Hilú foi condenada e ficou presa por, ao todo, quatro anos – pelos crimes de tráfico de crianças, falsidade ideológica, formação de quadrilha e retirada ilegal de crianças do país. Foram duas condenações e dois períodos presa. Há informações divergentes sobre uma eventual terceira prisão, na mesma época.
Hilú começou a “carreira” atuando como advogada, embora não fosse diplomada em Direito, na Penitenciária Estadual do Paraná, de onde foi demitida em 1981. A partir de 1983, passou a trabalhar como “curadora especial de menores” e se envolveu no tráfico de crianças. Uma reportagem de 1986 do jornal O Estado de S. Paulo afirmava que a demissão “acabou favorecendo-a ainda mais (…), e daí foi um passo para iniciar a lucrativa atividade de vender bebês brasileiros a casais de vários países”.
Naquela mesma época, Hilú já era viúva e tinha dois filhos, nascidos em 1967 e em 1984 – o filho mais novo foi adotado ilegalmente por ela. Em 1986, o jornal O Estado de S. Paulo afirmava que “Arlete parece ter hoje uma invejável situação financeira, sempre apresentada como uma bem-sucedida advogada”. Embora se apresentasse ora como advogada, ora como contabilista, por vezes como assistente social ou “curadora especial de menores”, às vezes como enfermeira, não há informações precisas sobre sua real profissão.
Contexto
O esquema liderado por Arlete Hilú ocorreu num período em que foram registrados vários casos de desaparecimento de crianças no sul do Brasil, especialmente no Paraná, onde ela atuava. Em meio a essas ocorrências, dois casos ganharam especial destaque na época: o caso Evandro, com o desaparecimento, por sequestro, e morte do garoto Evandro Ramos Caetano, de apenas 6 anos de idade; e o também desaparecimento de Leandro Bossi, ocorrido dois meses antes do sequestro de Evandro.
Os dois casos ocorreram na cidade de Guaratuba, no Paraná. Ambos foram esmiuçados pelo jornalista Ivan Mizanzuk no podcast Projeto Humanos. A temporada a respeito do caso Evandro virou série na Globoplay e livro de autoria de Mizanzuk. Embora o envolvimento de Hilú nestes dois casos específicos nunca tenha sido provado de forma definitiva, a polícia do Paraná chegou a levantar, à imprensa, a suspeita de seu envolvimento.
Desdobramentos
Na década de 1980, o esquema liderado por Arlete Hilú tirava ilegalmente bebês do Brasil e os levava de forma clandestina para adoção por famílias estrangeiras, em vários países. De acordo com a imprensa brasileira da época, Arlete começou a traficar bebês em 1983, mediando a adoção de crianças estrangeiras. Segundo a criminosa, ela o fazia “apenas por assistencialismo”, mas cada bebê era vendido por 8 mil a 10 mil dólares (dado de 1986).
O esquema era particularmente atuante em Israel, onde estima-se que cerca de 3 mil crianças teriam sido adotadas, a maioria com a sua intermediação. O número é tão alto que existe hoje no país do Oriente Médio um movimento organizado por jovens que foram adotados ainda bebês ou crianças de forma ilegal e que hoje desejam conhecer a família biológica. Muitos dos adotados, que hoje são adultos, buscam suas famílias biológicas e informações sobre suas origens.
O que este caso revela
Casos como o de Arlete Hilú ajudam a evidenciar padrões recorrentes:
- fragilidade dos registros civis em determinados períodos
- ausência de controle institucional
- dificuldade de acesso à informação décadas depois
Eles também mostram como essas histórias permanecem abertas e impactam diretamente a vida de pessoas que ainda buscam respostas.



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